Adaptação de imigrantes haitianos em Porto Alegre

Texto: Bruno Teixeira, Cássia Tavares, Gabriel Brum e Victor de Freitas / Foto e vídeo: Bruno Teixeira / Infográficos: Glauber Winck

Introdução

Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul (Brasil), tem recebido uma série de imigrantes haitianos nos últimos meses. Em busca de melhores condições de vida, grande parte deixa o Haiti com pouco conhecimento a respeito do seu destino final. Muitos trazem na mala uma visão idealizada do Brasil que difere da realidade encontrada aqui.

As diferenças culturais, a saudade da família, as dificuldades financeiras, o despreparo de alguns órgãos oficiais, a precariedade nas acomodações e o preconceito étnico são algumas das adversidades enfrentadas por esses imigrantes ao desembarcarem em terras brasileiras. Outra dificuldade é quanto ao domínio do idioma português, parte fundamental para a integração do indivíduo à nova realidade. Por isso, a educação desempenha papel importante no delicado processo de se adaptar ao novo país. Essa reportagem se divide em duas partes: a primeira trabalha as questões de moradia e trabalho e a segunda foca na educação.

O Haiti está entre os principais países no ranking de vistos emitidos pelo Brasil (líder em 2012). Os haitianos, em grande maioria homens, vêm para o Brasil a procura de emprego e uma melhor qualidade de vida. A intenção é se instalar para, em seguida, trazer o restante da família, ou, ao menos, conseguir renda suficiente para enviar aos parentes que ficaram em sua terra natal.

Vistos permanentes Brasil

Panorama imigração

 

1. Adaptação, moradia e trabalho

Centro Vida

Na busca por oportunidades de emprego, maiores remunerações e melhores condições de vida, nem sempre os imigrantes possuem pessoas conhecidas, moradia ou alguma perspectiva de trabalho quando chegam a Porto Alegre. Nesses casos, o papel desempenhado pelas Secretarias dos Direitos Humanos da capital e do estado é essencial.

Dentre os órgãos do governo que se notabilizaram recentemente por acolher imigrantes temporariamente desabrigados está a Fundação Gaúcha do Trabalho e Assistência Social (FGTAS), que mantém o Centro Humanístico Vida.

O Centro Vida, como popularmente é conhecido o local, fica na Zona Norte de Porto Alegre e foi o endereço de referência nos últimos meses no que se refere à recepção de estrangeiros na capital gaúcha. Lá, era fornecido alojamento, ajuda para encaminhamentos ao mercado de trabalho e alimentação até o momento em que o imigrante conseguisse um emprego.

De acordo com o coordenador do Centro Vida, Tiago Pinheiro Machado, atualmente o local está alojando novos imigrantes apenas em casos extremos, como quando o estrangeiro não conhece ninguém, não tem moradia e emprego. Segundo ele, os alojamentos temporários são precários e não contam com uma estrutura adequada para o abrigo por um período mais longo de tempo.

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Formado por um conjunto de galpões, o local dispõe de refeitório para a realização de refeições (com fogões, mesas, geladeiras), banheiros, quadra de futebol e espaço para alojamento, onde dormem todos os imigrantes, sem separação por gênero.

Algumas paredes danificadas e o teto sem cobertura em alguns ambientes dos galpões são as principais precariedades visíveis no local.

O coordenador do Centro Vida relata que está sendo feito um convênio entre o município e o Estado com o Ministério do Desenvolvimento Social e o Ministério da Justiça para a construção de um abrigo com condições de receber de maneira satisfatória os imigrantes que necessitem de auxílio.

Busca de uma vida melhor

Lyonel Dominique, 25 anos, e Marcel Joseph, 24, ambos há 4 meses no Brasil, temporariamente moram no Centro Vida.

foto Lyonel e Marcel

Lyonel e Marcel

Marcel nasceu em Arcahaie, no Haiti, de onde saiu em 2013 rumo à República Dominicana. Solteiro, possui parentes em diversos países da América Latina, como Chile, Uruguai e Argentina, e também em países da Europa, como a França. O objetivo de buscar a vida fora de sua nação natal é o mesmo de vários outros imigrantes: oportunidades de emprego e melhores condições de vida.

gráfico Haiti-RS

No início do ano, instigado pela imagem tinha do Brasil, resolveu vir para cá. Da República Dominicana, passou pelo Panamá e Equador até desembarcar em Porto Alegre. A cidade foi escolhida graças a indicações de conhecidos, que o alertaram que aqui havia mais oportunidades que em outros locais do país, como São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, outro fator também influenciou na escolha de Marcel: o frio, tão escasso na quente República Dominicana e mais intenso aqui no sul.

Instalador elétrico, trabalha de segunda à sexta. Como a empresa em que está tem sede em Porto Alegre e Lajeado, por vezes passa a semana inteira na serra gaúcha, voltando apenas no fim de semana. Lá, segue uma rotina baseada no trabalho das 8h às 17h, aproveitando o tempo livre para descansar.

foto Marcel

Marcel

Lyonel, por outro lado, representa o perfil predominante entre os imigrantes haitianos: o pai de família que busca se estabelecer no Brasil e posteriormente trazer os familiares para perto de si. Pai de um menino de três anos, nasceu em Lascahobas, Haiti. Assim como Marcel, veio sozinho para cá e não conhecia ninguém por aqui.

Empregado na construção civil, Lyonel pega dois ônibus para ir trabalhar, atravessando diversos bairros de Porto Alegre. Seu serviço fica perto da Arena Porto-Alegrense, estádio do Grêmio, time de futebol para o qual ele e Marcel torcem. Apesar de ainda não ter ido a nenhum jogo, pretende conhecer o estádio por dentro assim que possível.

O futebol, aliás, é um dos passatempos da dupla. “Todo domingo nós jogamos aqui”, conta Marcel, indicando com a mão direita uma das quadras de futsal do Centro Vida. A bola, segundo eles, só não rola quando some ou estraga – o que justamente havia acontecido no domingo anterior.

A música é outro divertimento nas horas vagas. Se na infância ela estava muito relacionada com a religião (Marcel tocava trompete em uma igreja perto de casa), hoje ela representa um elo que os aproxima ao país de origem. A dupla, que desconhece artistas brasileiros, se agita quando ouve pela primeira vez o grupo de rap Racionais MC’s. De imediato, Lyonel procura um vídeo no celular para mostrar um cantor haitiano, também de hiphop, gênero que os dois gostam bastante, sabendo citar dezenas de músicos em sequência, especialmente os norte-americanos. O escolhido na busca de Lyonel é Izolan que, em parceria com Mikaben, compôs “M’anvi Fel Ave’w”. Os dois artistas são muito populares no Haiti.

Dificuldades iniciais e próximos passos:

A principal dificuldade apontada pelos dois é o idioma. Mais desenvolto, Marcel entende bem  e comunica-se de maneira razoável, tendo, inclusive, atuado como tradutor nos diálogos em que Lyonel encontrava mais dificuldade. A importância de possuir alguém estabelecido na cidade é outro ponto destacado por ambos, tanto para o auxílio com a língua quanto em relação ao estabelecimento em algum local.

Para o futuro que se aproxima, eles pretendem arranjar uma casa para alugarem juntos, talvez com a companhia de mais alguém para repartir as despesas. A partir daí, a qualificação profissional é o próximo passo. Marcel quer realizar um curso que lhe possibilite trabalhar com a parte elétrica em obras, enquanto Lyonel almeja crescer na construção civil, especializando-se e se tornado mestre de obras.

Para quem é estrangeiro e pretende vir para Porto Alegre ou recém chegou à cidade, eles mandam as seguintes mensagens, em seu idioma de origem, o crioulo haitiano.

Mensagem Marcel: Marcel agradece a todos os brasileiros e brasileiras, porque quando chegou aqui não tinha nenhum amigo para recebê-lo. Ele explica que o Governo o recebeu e o manteve por dois meses. Enfatiza que quando chegou os brasileiros o ajudaram e indica que quem está chegando pode receber comida, lugar para dormir e auxílio para a procura de um trabalho.

Mensagem Lyonel: Lyonel conta que no ônibus a caminho de Porto Alegre alguns haitianos ficaram em Santa Catarina. Após o embarque para a capital gaúcha, Lyonel relata que perguntou para Deus por que ele não o fez ficar por lá, visto que ele não conhecia ninguém por aqui. Quando desembarcou em Porto Alegre, viu um haitano que, após ouvir que era a primeira vez que ele vinha à cidade, o conduziu até um carro que o levou ao Centro Vida. Na manhã seguinte, um brasileiro o ajudou a obter alguns documentos oficiais, entre eles a Carteira de Trabalho. Lyonel relata que recebeu ajuda para encontrar emprego, o que possibilitou ele achar o atual trabalho. No final, agradece a Deus por tudo ter dado certo.

Paróquia da Pompéia

A paróquia da Pompéia procura ajudar na adaptação dos imigrantes em diferentes aspectos. Através do CIBAI migrações (Centro ítalo – brasileiro de assistência e instrução às migrações), a igreja dispõe de auxílio psicológico e jurídico; cursos profissionalizantes, cursos de língua portuguesa e eventos culturais que visam valorizar a pluralidade e a integração. Além disso, a instituição orienta e encaminha os que necessitam de serviços relacionados a Consulados, Polícia Federal, Poder Público, Ministério de Justiça, Ministério do Trabalho, Fundações, Associações, Assistência Social, Hotéis, Albergues, Universidades e Especialidades médicas.

As aulas de português são gratuitas e ocorrem todas as quintas (manhã) e sábados (manhã ou tarde). Jonas Pertile, coordenador do curso, chama atenção para a instabilidade na frequência e pontualidade dos alunos. É comum os alunos irem apenas em alguns encontros e desistirem após uma colocação no mercado de trabalho. Entretanto, Jonas lembra que a relevância de aprender português não está apenas na inserção no mercado de trabalho, está também na participação dos imigrantes na sociedade brasileira. Além da relação professor – aluno, cria-se um vínculo de amizade, o professor transforma-se em uma espécie de conselheiro que ajuda na ambientação dos recém chegados.

Aula de Português na Pompéia 2

Aula de português na Paróquia Pompéia

Pertile aponta ainda para a importância da ajuda psicológica oferecida pela Paróquia, visto que, toda a mudança com relação ao país (clima, geografia, cultura, idioma, trabalho), aliada à distância da família e dos amigos, cria uma série de conflitos emocionais. A estratégia mais comum é primeiro o homem vir para o Brasil e, depois de estabelecido, virem esposa e filhos. A embaixada haitiana só libera a vinda do restante da família depois de comprovada a estabilidade do primeiro imigrante no Brasil, por meio do visto permanente, comprovante de residência e vínculo trabalhista.

A paróquia não tem um dado preciso sobre a quantidade de alunos, estima-se que o número permaneça em cerca de 50 haitianos e 50 senegaleses frequentando as aulas de português. Atualmente, essas são as nacionalidades que mais procuram a instituição. Outros países mencionados por Jonas Pertile foram República Dominicana, Síria, Rússia, Filipinas e os países da América Latina em geral que representam um fluxo migratório constante.

O CIBAI foi criado em 1958 pela Igreja Católica a fim de substituir a Secretaria Católica de Imigração, criada para atender os refugiados da Segunda Guerra Mundial. Em seu início, a instituição dedicou maior atenção aos imigrantes italianos, posteriormente aos latinos vítimas das ditaduras que se espalharam pelo continente entre as décadas de 1960 –1980. Atualmente, seus projetos passaram a englobar os estudantes estrangeiros que chegam a Porto Alegre e o fluxo imigratório de haitianos, senegaleses e imigrantes procedentes de outros países africanos e orientais, dando prioridade a pessoas em situação de vulnerabilidade.

Paraóquia da Pompéia - bandeiras

Fachada da Paróquia Pompéia

A instituição não possui projetos voltados especificamente para receber mulheres, crianças ou idosos, devido a escassez de verba e mão de obra. A única atividade direcionada para um público mais específico é o Natal das crianças que ocorre já há quatro anos. O evento integra filhos de imigrantes vindos de diferentes lugares do mundo por meio de uma tarde recreativa, com música, brincadeiras e distribuição de presentes.

O trabalho da Paróquia Pompéia é viabilizado por meio de trabalho voluntário e doações. Participam pessoas de diferentes áreas que são alocadas conforme disponibilidade de horários e funções. A igreja costuma ser beneficiada por campanhas de doações de alimentos não perecíveis, assim como de roupas e brinquedos. Além disso, são aceitas doações diretamente na sede. A principal demanda é por roupas masculinas, já que a maioria dos imigrantes atendidos pela instituição são homens.

 

2. Educação

Aulas de português para haitianos

Na Pompéia

A turma avançada das aulas de português da Igreja da Pompéia tinha nove alunos presentes na manhã do dia 21 de novembro, um sábado de sol em Porto Alegre. Entre os presentes havia cinco senegaleses, um casal de colombianos e dois haitianos: Richard Joseph, 26 anos, e Marc-Antoine Seulmot, 33 anos.

Aula na Pompéia

Aula de português na Paróquia Pompéia

Richard mora em São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre. Ele vive há um ano no Brasil. Com exceção dos colombianos, é o que melhor se comunica em português da turma. Já está mais familiarizado com o país e diz adorar churrasco e o cantor de sertanejo universitário Gustavo Lima. “Todo mundo gosta do Gustavo Lima no Brasil”, afirma. Durante a aula, Richard interage com os professores constantemente .

Marc-Antoine está há 10 meses no Brasil e mora em Porto Alegre. No Haiti, ele tem uma namorada com a qual tem quatro filhos, os três primeiros de 10, 7 e 5 anos. A quarta, uma menina chamada Manise, nasceu em abril e Marc-Antoine não pode conhecê-la. Por não ter tanta intimidade com o português, ele é mais quieto durante as aulas e para que fosse possível compreender sua história foi preciso que Richard traduzisse boa parte de suas falas do crioulo haitiano para o português.

A primeira atividade da aula tinha o objetivo de fazer os alunos perderem a inibição. O professor Baiar Broker, que ensina português e trabalha na coordenação da memória da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, e Vali Inês Mörs, professora e bacharela em Direito, iniciavam com cada aluno, individualmente, um diálogo sobre a situação de trabalho dos imigrantes. A ideia era estimular a fala e corrigir as palavras quando necessário.

Aula de português na Pompéia

Aula de português na Paróquia Pompéia

De uma forma geral, a turma mostra dificuldades. O professor conversa ora em português, ora em francês para auxiliar os imigrantes. De acordo com a Secretaria de Cultura, a maior parte dos imigrantes haitianos trabalha no setor de construção e serviços. Essa estatística se confirma nos relatos: um dos alunos trabalha em uma padaria, outro em uma obra e o terceiro em um restaurante.

O professor Baiar Broker conta que a inibição provocada pelo pouco conhecimento da língua portuguesa, é o principal obstáculo para os imigrantes que chegam à igreja da Pompéia para apreender. Ele afirma que não saber a língua pode criar uma exclusão dos imigrantes não só no ambiente de trabalho, mas na sociedade como um todo. A segregação é um ponto enfatizado também pela professora Vali Mörs. “Ajudar na integração, no acolhimento, é o mais importante depois do que vimos no mundo recentemente”, afirma.

Aula de português Pompéia - música

Aula de português na Paróquia Pompéia

A música “Nem luxo, Nem lixo”, da cantora Rita Lee, é utilizada na segunda parte da aula como exercício. Baiar Broker questiona se os alunos conhecem a artista e os alunos dizem que não. Depois, ele pergunta quais cantores brasileiros os imigrantes conhecem. O nome mais ouvido é o de Roberto Carlos, seguido pelo de Michel Teló. Caetano Veloso também é citado, pela colombiana, e Richard fala de Gustavo Lima. A tarefa é ouvir a música e descobrir quais palavras foram apagadas. Após três audições, os alunos começam a correção. Em seguida, a turma recita a música completa. “Como vai você?/ Assim como eu/ Uma pessoa comum/ Um filho de Deus/ Nessa canoa furada/ Remando contra a maré/ Não acredito em nada não/ Até duvido da fé”.

No Resgate

No sábado (24/10/2015) em que milhões de candidatos estavam realizando o primeiro dia de provas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), o prédio do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de Porto Alegre (STICC) sediava mais uma aula de português para imigrantes haitianos e senegaleses. Se na prova nacional alguns almejavam a obtenção do certificado de conclusão do ensino médio e o ingresso em algumas universidades brasileiras, no segundo piso do prédio do STICC os alunos buscavam conhecer mais sobre o idioma brasileiro para facilitar a sua adaptação ao novo país.

Todos os sábados, durante duas horas, normalmente das 17h às 19h, professores vinculados ao Resgate (Centro de Educação e Cultura Pré-Vestibular Resgate Popular) realizam atividades visando melhorar o conhecimento da língua portuguesa por parte dos estrangeiros cuja língua principal é ou deriva do francês.

O Resgate existe desde 2002 e prepara para o vestibular os estudantes de classes populares de Porto Alegre e região metropolitana. Para ter acesso às aulas, os alunos contribuem com R$10,00 mensais. Os professores que atuam no curso são todos voluntários. O objetivo é não só preparar para o vestibular, mas também contribuir para uma sociedade mais igualitária.

As aulas de português para os imigrantes são de graça e o material utilizado nas lições é cedido pelo próprio Resgate. De acordo com a professora Marcela Tarter da Rosa, o curso disponibiliza duas turmas, divididas conforme o grau de conhecimento do aluno. Naquele sábado, quando a aula do primeiro nível estava prestes a começar, dois novos estudantes apareceram, tendo que realizar um breve teste de nivelamento para que se pudesse saber em qual grupo o aluno deveria ingressar. Como muitas vezes a informação sobre a existência das aulas é realizada boca a boca, em conversas entre amigos, não raro surgem novos integrantes a cada fim de semana.

Aula de português no Resgate

Aula de português no Resgate

A turma do primeiro nível contava com 10 alunos, oito homens e duas mulheres – número que se repetia na sala ao lado. Além de Marcela, mais dois professores conduziam a aula. Alternando expressões em português e francês, inicialmente os docentes revisaram algumas perguntas cotidianas exercitadas nas aulas anteriores, como “Qual o seu nome?/Comment vous vous appelez?”, “Você é de onde?/Vous êtes là où?”.

Além de visar atividades que tem o objetivo de facilitar a comunicação diária dos alunos, nas aulas também são utilizados produtos da cultura brasileira para que o estudante tenha mais informações e contato com o idioma. Uma música da cantora baiana Gal Costa, por exemplo, foi executada para que os alunos respondessem a algumas questões. Logo em seguida, os professores apresentaram os seus documentos de identidade que circularam de mão em mão para que todos conhecessem as semelhanças e as diferenças entre os comprovantes de identificação brasileiros e haitianos. Segundo os alunos em aula, ao contrário do Brasil – onde se pode fazer o documento de identidade a qualquer momento, no Haiti só é permitido a partir dos 18 anos. Até a maior idade, o documento de identificação utilizado é a certidão de nascimento.

Buscando facilitar a vinda dos estudantes às aulas e diminuir as ausências, quem frequenta o curso recebe um comprovante de matrícula e pode confeccionar o cartão escolar TRI, que possibilita pagar a metade do valor da passagem nos ônibus coletivos de Porto Alegre. “Como muitos alunos moram em regiões periféricas da cidade ou na região metropolitana”, explica a professora Marcela, “precisam pegar mais de um ônibus para chegar até aqui. Esperamos que com o TRI as ausências diminuam”.

Informações sobre o curso:

 

A alfabetização de crianças haitianas nas escolas de Porto Alegre

Há 18 anos atuando como professora na rede pública de Porto Alegre, Jussara Bernardi já participou do processo de alfabetização de muitos alunos. Porém, desde outubro de 2014, sua rotina de trabalho tornou-se ainda mais desafiadora com a chegada de Johnica Gabriel, de 9 anos. Matriculada no 3º ano (2ª série), a menina foi a primeira estudante haitiana da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Décio Martins Costa, bairro Sarandi, zona Norte.

Foto crianças haitianas

Alfabetização de alunos haitianos na escola Emef Décio Martins Costa

Alfabetizada nas línguas francesa e crioulo haitiano, Johnica passou a participar, no turno inverso às aulas regulares, do Laboratório de Aprendizagem, que é coordenado por Jussara, para ser alfabetizada na língua portuguesa.  Por meio de contações de histórias, apresentações de gravuras e jogos educativos, Jussara ensinou à estudante o suficiente para que ela se tornasse uma espécie de assistente no laboratório e vislumbrasse seus primeiros sonhos em solo brasileiro. “Gosto da escola, das professoras que ensinam as crianças. Quero ser professora”, resumiu. Outro benefício é o fato da Emef Décio Martins Costa dispor de aulas de francês, o que facilitou na comunicação entre a menina e os professores.

No período de um ano, outras cinco crianças, nascidas no país caribenho, também foram matriculadas na instituição. Midasendje Jenne, 8 anos,  Ariolanda Alexandre, 11 anos, e Loudjina Saola  frequentam a escola desde março. Por falarem apenas crioulo haitiano, as meninas foram auxiliadas por Johnica, nos primeiros meses, na comunicação com os professores. Curiosamente, a barreira linguística não impediu que, rapidamente, criassem laços de amizade com as crianças brasileiras.

Os meninos do grupo, Manly Charitable, 8 anos, e Mickelson Lens Joseph, 10 anos, chegaram a Porto Alegre no segundo semestre de 2015. Manly fala apenas crioulo haitiano, já Joseph fala crioulo haitiano e francês. Assim como as meninas, eles também participam do Laboratório de Aprendizagem, mas, por terem chegado há poucos meses, ainda estão aprendendo as primeiras palavras em português. Por outro lado, Ariolanda, Johnica , Loudjina e Midasenje já pronunciam e escrevem frases em português.

aula crianças

Laboratório de Aprendizagem na Emef Décio Martins Costa

Em comemoração ao dia do professor, em 15 de outubro, os estudantes da Emef Décio Martins Costa foram incentivados a escreverem cartas aos seus professores. Desde então, a professora Jussara é frequentemente presenteada com cartas das estudantes haitianas.

Carta das crianças para professora

Carta para a professora Jussara escrita pelas alunas haitianas

Aprendizado Lúdico

A dinâmica do Laboratório de Aprendizagem faz com que os estudantes sejam alfabetizados de forma lúdica. Em meio as histórias contadas, Jussara questiona os alunos sobre objetos ou animais que aparecem nos livros. Quando o nome é revelado, os alunos associam as imagens aos fonemas e deste modo vão se familiarizando com a língua. Mesmo sem saber ler em português, Joseph folhou um gibi da Turma da Mônica e nomeou algumas das figuras impressas.

aula crianças haitianas

Laboratório de Aprendizagem na Emef Décio Martins Costa

Programas de incentivo à leitura também são desenvolvidos na rede municipal, caso do Adote um Escritor, que consiste na leitura de obras de um escritor que será adotado pela escola e visitará o local. Na escola Décio Martins Costa, ao exemplo da confecção de cartas para os professores, o programa Eu Leio, Tu Lês, Nós Lemos, desenvolvido pela professora Maria Carolina Santos, foi premiado no Projeto Quintanares, da Câmara Rio-grandense do Livro. Cada aluno da turma A33, do 3º ano, recebeu o valor de R$ 30,00  para compra de livros escritos por autores do Adote um Escritor, na Feira do Livro. A premiação foi destaque de reportagem do jornal Diário Gaúcho, que acompanhou a visita de Johnica, Midasendje, Ariolanda e Loudjina pelo evento.

 

Mesmo enfrentando as carências do sistema público de educação, as escolas da rede municipal de ensino apresentam melhor estrutura, em relação à rede estadual de ensino, para receber os imigrantes oriundos do Haiti. Além da Emef Décio Martins Costa, as escolas Emef Chico Mendes, no bairro Mário Quintana, Emef Governador Ildo Meneghetti, no bairro Ruben Berta, e Emef Afonso Guerreiro Lima, no bairro Lomba do Pinheiro, têm crianças e adultos haitianos cursando o ano letivo. Conforme números divulgados, no mês de maio, pela Secretaria Municipal de Educação (Smed), cerca de 20 estudantes haitianos estão matriculados em escolas da rede, divididos entre o ensino regular e a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Além disso, as escolas dispõem de atividades em turno integral, como música, esportes, educação ambiental, educação étnico-racial, Laboratório de Aprendizagem e língua estrangeira.

 

Serviço / Contatos:

CENTRO VIDA 

Endereço: Av. Baltazar de Oliveira Garcia, 2132, Porto Alegre – RS

Telefone: (51) 3344 3960

E-mail: vida@fgtas.rs.gov.br

SECRETARIA DO TRABALHO E DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL 

Endereço: Av. Borges de Medeiros, 521- Centro, Porto Alegre – RS

Telefone: (51) 3284 6000

E-mail fgtas@fgtas.rs.gov.br

RESGATE 

Endereço (local das aulas): Olavo Bilac, 15, Porto Alegre – RS

E-mails: marcelatarter@hotmail.com ou resgatepopular@gmail.com

PARÓQUIA POMPÉIA 

Endereço: rua Dr. Barros Cassal, 220, Porto Alegre – RS

Telefone: (51) 32268800

E-mails: secretariapompeia@hotmail.com ou cibaimigracoes@gmail.com

Como chegar Pompéia

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